Existe uma menina
a quem dedico todo meu amor
ela é em mim
o que sou a sós.
Existe uma menina
que roubou toda minha atenção
não há nada nesse mundo que vejo
que não encontro ela.
Existe uma menina
com o bom dia mais doce que existe
o abraço mais apertado
o cheiro mais carinhoso
os olhos mais gigantes
o jeito mais bonito de levar a vida
a dois.
Quero que o inteiro dela
se interiorize em mim,
quero minhas manhãs
com as manhas preguiçosas de não querer levantar,
quero sentir a turbulenta calmaria de deitar em seu peito,
sentir suas palpitações, o aroma de sua respiração,
o timbre da sua voz, o deslizar do seu toque,
olhar profundissimamente seus olhos,
e na amplidão negra de suas meninas,
me ver refletida num futuro que quero estar.
Aperto meu corpo em seu abraço,
porque é onde quero morar.
segunda-feira, 11 de agosto de 2014
segunda-feira, 25 de novembro de 2013
Ela
Meu coração pequenino mora no lar que não sou eu,
A cidade que moro tem cheiro de flor,
cores barrocas,
e clima de morte.
É velha e putrefata,
tudo isso a faz linda - não bela.
Meu coração pequenino
quer abrigo no mundo,
e se abriga no peito da menina mais bonita que já amei.
Ela não é dessa cidade, não.
Não respira o mesmo ar que eu,
não morre de amores pelas coisas que me encantam.
Isso me encanta.
O que eu sou,
não é nela.
O que não sou,
me encontro nela.
A cidade que moro tem cheiro de flor,
cores barrocas,
e clima de morte.
É velha e putrefata,
tudo isso a faz linda - não bela.
Meu coração pequenino
quer abrigo no mundo,
e se abriga no peito da menina mais bonita que já amei.
Ela não é dessa cidade, não.
Não respira o mesmo ar que eu,
não morre de amores pelas coisas que me encantam.
Isso me encanta.
O que eu sou,
não é nela.
O que não sou,
me encontro nela.
quarta-feira, 3 de abril de 2013
Deus, você.
Deus não é justo,
o céu chora o voo do pássaro de abril,
meus pais choram a chegada do outono febril,
a neblina cobre os morros como véu de noiva virgem,
encobre a passagem dos ventos,
o presságio da mudança dos tempos.
Deus não é fiel,
não cumpre os sonhos sonhados de olhos abertos,
te dá pontapés
te gira a 180º
te desmonta, e diz "te vira, e te descobre sozinho, só assim me descobrirás"
Eu digo à Deus
Não, sou fraco,
sou pobre, sou frágil, sou descalço, sou manco.
Tu és completo como és, inteiro nos defeitos como deve ser.
Deus, por que?
Meu coração é pequeno, de menino de rua em roda gigante,
sou carente,
sou cheio de amor,
sou cheio de água nos olhos para derramar a outras belezas
sou cheio de coceiras nos dedos para tocar tudo aquilo que coça a vista, o paladar, o olfato.
Sou infante.
Porque és cheio de amor, tens muito a dar
e criança de rua merece o carinho que lhe é negado
Porque sou Deus,
e por que não?
o céu chora o voo do pássaro de abril,
meus pais choram a chegada do outono febril,
a neblina cobre os morros como véu de noiva virgem,
encobre a passagem dos ventos,
o presságio da mudança dos tempos.
Deus não é fiel,
não cumpre os sonhos sonhados de olhos abertos,
te dá pontapés
te gira a 180º
te desmonta, e diz "te vira, e te descobre sozinho, só assim me descobrirás"
Eu digo à Deus
Não, sou fraco,
sou pobre, sou frágil, sou descalço, sou manco.
Tu és completo como és, inteiro nos defeitos como deve ser.
Deus, por que?
Meu coração é pequeno, de menino de rua em roda gigante,
sou carente,
sou cheio de amor,
sou cheio de água nos olhos para derramar a outras belezas
sou cheio de coceiras nos dedos para tocar tudo aquilo que coça a vista, o paladar, o olfato.
Sou infante.
Porque és cheio de amor, tens muito a dar
e criança de rua merece o carinho que lhe é negado
Porque sou Deus,
e por que não?
Quereria
Queria ter motivos para me orgulhar de mim mesma
mas não tenho
sou podre
dos pés a cabea
sou metade capacidade
de tudo aquilo que poderia exercer
E a felicidade,
nao encontra espaço no entulho
de SEs
e QUANDOs
acumulados.
Queria ter motivos para sorrir a toa e dizer:
Que bom que eu segui as batidas do meu coração
Que bom que estou, quem sempre quis ser.
terça-feira, 19 de março de 2013
Seu Zé da Portaria
Sete de Fevereiro
Eu vejo em cartazes, pixações, adesivos espalhados pelos muros dizeres MAIS AMOR, POR FAVOR, ou O AMOR É IMPORTANTE, PORRA, ou então GENTILEZA GERA GENTILEZA, o que me lava a pensar : A que ponto chegamos, que se faz necessário pedidos gritantes em muros por afeto, atenção, consideração, carinho e respeito ao próximo?
Serão as pessoas assim tão encabrestadas e envoltas de si mesmas que se tornam incapazes de oferecer atenção ao próximo? Eu não sei nem se "oferecer" é a melhor palavra a ser usada... Serão todos assim, tão pequeninamente únicos indivíduos que só percebem a própria carência e não notam que o ato de amor é uma via de mão dupla ?
A dor do outro é invisível a nossos olhos, a não ser quando nos tornamos sensíveis o bastante para nos reconhecermos no próximo, enxergar nos olhos, na menina dos olhos, nosso reflexo. Temos olhos, espelho da alma, temos boca, capaz de transmitir amor e desprezo, ouvidos, receptores do que as bocas escolhem transmitir. Temos mãos, nariz, pêlos, cabelos, toque, tato, calor, cheiro. Sensibilidade. Esses sentidos não podem ser ignorados, e são tantas vezes usados como escudos ao invés de aproximar, afasta. Fazemos deles ferramentas de nossas bolhas existênciais, na qual só há espaço para um, o ego.
Tapamos os ouvidos com fones e escolhemos o que queremos ouvir, rádio? Não, apenas a música que eu escolhi. Tapamos os olhos com aplicativos de última geração, aqueles que nos dão contato com as "redes sociais", ou algum livro que nos conforta, o que vende mais na Saraiva, aquele que vão fazer um filme com a Jennifer Lawrence, ou é com a Emma Watson ? Não, eu li no twitter dela, que ela nunca faria esse filme...
Nos orgulhamos tanto da racionalidade inerente e autoproclamada próprima do Homem, e nos esquecemos que antes de tudo, antes da razão, vem o choro. Sim, o choro. Não, eu não quis dizer a emoção, eu disse choro. O primeiro gesto humano, universalmente humano, que nos afasta qualquer diferença de cor da pele, dos olhos, etnia, cultura, país, condição social, é o choro. A expressão máxima da sensibilidade. Ao nascer, choramos. O bebê chora, os pais choram, ou só a mãe.
Não deve, portanto, ser um fato vergonhoso pedir por amor, por favor (ainda mais assim, tão educadamente), ou então chorar em público, parar em uma praça e observar as pessoas, a rua, as árvores, conversar com o idoso, com a criança, oferecer ajuda a senhora carregando compras no ônibus, sorrir ao seu Zé porteiro, pedir licença ao faxineiro. Ao nascer, choramos. Não é vergonha, é nobre, é humano. É necessário humanizar o ser humano.
terça-feira, 12 de março de 2013
Aleijado
Teu santo é forte, é São Francisco?
Meu santo é forte não sinhô,
meu santo é fraco, é aleijado
Mas teu santo é homem, é de importância?
Meu santo é não, sinhô,
meu santo é negro, é ex-escravo
Quem te protege, quem é teu salvador?
Não tenho anju protetô...
Com quem tu falas,
por que cola as mãos e olha o alto?
Porque quero força e vontade
pra montar essa bela imagem
que os homem diz ser igreja
pra mim é monumento de beleza
feita com poucas ferramenta
dum homem pobre, negro e sofredô,
Sô fraco, meu sinhô,
busco paz, calma e discanso,
ao nome, quero só a lembrança,
na terra que nada que me deu,
na terra que nada que me deu,
e ao espírito, merecimento no colo de Deus.
segunda-feira, 4 de março de 2013
Estimação
Estimação
Estávamos eu e o rato na cozinha. Ele no canto embaixo do armário
da pia, encostado na quina de duas paredes, e eu, na entrada, com meu
dedo direito ainda no interruptor, e meus olhos escaneavam toda a
cozinha, vagarosamente, pois não queria perder de vista os pequenos
olhos vermelhos que avistara antes mesmo de acender a luz.Cheguei a cozinha sedenta e tão violentamente, que aquele serzinho mal teve tempo de planejar uma fuga, foi de encontro a parede, encurralado, enquanto a mim, distraída que estava, levei um choque, quando meus olhos míopes cruzaram, em uma fração de segundos, duas luzinhas turvas avermelhadas, e ouvi um curto som estridente que me arrepiou até o dedão do pé.
E ali estávamos, eu e o rato, ele me olhava encolhido, tremendo, e eu o olhava pasma, calada, fria. Nada me passava pela cabeça, nem a vontade de gritar por socorro, ou de sair correndo de medo. Eu apenas pensava que havia um rato na minha cozinha, isso não poderia ser verdade, inacreditável, não era possível…
Afinal, aquela era minha casa que eu prezava com tanto gosto, Havia repintado as paredes a poucos dias, os quadros velhos nas paredes frescas, os meus móveis cor de café que combinavam com as rendas que cobriam a mesa de estar e o sofá, estes por sua vez, tinham a cor condizente com a do tapete goiaba.
Mas tudo o que eu pensava, era no rato encostado no azulejo da cozinha. A cozinha! O cômodo que, depois da sacada do quarto, era o que eu mais gostava de estar. Era ali pois, que eu cozinhava, com uma certa alegria no olfato, contraditória a do paladar admito, minhas refeições, e o forno, ainda bem distante do rato, eu havia assado um bolo de fubá (que não cresceu apesar) aquela tarde, e eu podia quase sentir o cheiro da erva doce com fubá, se não fosse a supremacia do cheiro oleoso e acizentado daquele roedor encostado no azulejo da minha cozinha.
E o rato ali estava, tremendo e emitindo sons de sua forma mais primordialmente roedora, eu quase pude sentir dó. Respirei um pouco mais fundo e ele gritou. Estendi minhã mão esquerda até a parede onde estava pendurado o chaveiro em forma de pires, um mimo, e alcancei a chave, quase simultaneamente, me afastava enquanto minha mão direita apagava a luz. Fechei a porta a cozinha e sai pelo corredor da sala. Fui tomar um café morno na padaria da esquina.
Acontece
Acontece
Quando você conta uma mentira uma vez, e gosta disso, você mentirá sempre.Chega um momento, que você se torna um mentiroso patológico. Oh Céus,
ainda bem que eu não minto.
só não conto a verdade.
Eu não sei o que dizer, aliás, nunca soube, mas eu gosto, me sinto bem, em escrever, o que quer que seja que eu sinto, penso, e quero transmitir. Eu sempre tomei muito cuidado nas escolhas das palavras, de uma forma quase política. Um certo eufemismo, admito, que sempre usei.
” Meu bem, eu não quebrei o copo; ele se quebrou enquanto eu o segurava.”Pode soar como descaso, ironia, sarcasmo. E não é, eu sou assim, um meio termo, um eterno talvez , um eterno acidente, que nunca foi minha intenção, e a culpa não foi minha. As coisas acontecem. E aconteceu.
O copo se quebrou;
a promessa também;
e a confiança.
E eu não sei como me sinto. Sei que meu bolso acaba de perdeu R$1,99 pelo copo, mas enfim…meu coração perde mais do que valores contáveis.
Menos poeta
18 de fevereiro
Eu posso ser tudo,menos poeta.
Eu canto o instante que me encanta,
mas meu canto,
não encanta alheios instantes.
Eu posso ser livre nos passos,
mas as palavras são poucas e limitantes,
Eu posso ser tudo,
menos poeta.
Eu vejo o voo dos pássaros,
o pulo do gato,
Ouço o choro de quem mama,
os suspiros de quem ama,
e tudo é bom a certa distância.
E tudo é belo na fotografia e no cinema,
Eu posso ser tudo,
menos poeta.
Eu vejo a fuga e a tristeza,
Eu vejo a dor e não beleza,
Eu pinto o feio, o grito e a distorção.
Escrevo o manifesto infesto de assombração
Exponto o cheiro da flor morta e do chorumo do lixão.
Eu posso ser tudo,
menos poeta.
Nem tudo é vivo na vida,
nem tudo tem beleza para ser belo.
Eu posso ser tudo...
domingo, 27 de janeiro de 2013
Carnavália
Desenho o que a alma encanta.
O abstrato me atrai de tal forma, que a forma e a estrutura secundarizam o elemento.
Não sou artista, não senhor.
Não sei das dores do mundo,
Não sei da guerra, nem da miséria
Não sei de nada tão forte capaz de abalar o ser concreto.
Sei da razão, essa é didática e real.
Me afasto, pois não me interessa o certo.
O torto, o estranho, o tormento da dúvida...
O deleite da incerteza.
Por que tudo está tão calmo?
Por que vendamos os olhos?
Por que estando em desalinho, fechamos os olhos, tapamos os ouvidos, calamos a boca para o Carnal?
Por que o Metal ?
Por que devo estar para a razão, quando o que me atrai não é a formalidade?
Gosto do carnaval e do acaso,
gosto dos instantes, da surpresa, longe de mim a certeza!
Escrevo o que à alma encanta,
Escrevo porque penso, e acima de tudo, desejo.
O abstrato me atrai de tal forma, que a forma e a estrutura secundarizam o elemento.
Não sou artista, não senhor.
Não sei das dores do mundo,
Não sei da guerra, nem da miséria
Não sei de nada tão forte capaz de abalar o ser concreto.
Sei da razão, essa é didática e real.
Me afasto, pois não me interessa o certo.
O torto, o estranho, o tormento da dúvida...
O deleite da incerteza.
Por que tudo está tão calmo?
Por que vendamos os olhos?
Por que estando em desalinho, fechamos os olhos, tapamos os ouvidos, calamos a boca para o Carnal?
Por que o Metal ?
Por que devo estar para a razão, quando o que me atrai não é a formalidade?
Gosto do carnaval e do acaso,
gosto dos instantes, da surpresa, longe de mim a certeza!
Escrevo o que à alma encanta,
Escrevo porque penso, e acima de tudo, desejo.
segunda-feira, 17 de dezembro de 2012
conformismo
Só falta o conformismo, essa tristeza tá demorando demais pra ir embora. O chá já acabou e estamos ficando sem biscoitos.
quarta-feira, 5 de dezembro de 2012
Para morrer feliz
O relógio não gosta de mim, nunca gostou. Antigamente eu o ignorava, ele passava, eu fingia que nem via, depois de dar uma de difícil, eu corria atrás. Ultimamente tento conquistá-lo, mas o danado foge de mim, me ganha na marra. O tempo que tenho é o espaço entre o piscar e respirar, não vejo, não olho, não penso muita coisa que gostaria de pensar, de ver, de olhar. Ouço somente a enxurrada de ignorância opcional que existem em meus fones de ouvido. É melhor assim.
Em algum momento desse dia, escolhi poupar meus ouvidos, e permitir o vento de me falar. No horário de verão, mesmo o rush parece mais romântico, é quase um êxtase poético ver folhas de ipê recém nascidas sendo esmagadas por volks, mercedes, fords, fiats, na impermeabilidade asfáltica. Nasci concretada, acostumei com cinza nos dias.
Eu não sei adivinhar, nem palpitar o que vem acontecendo, pode ser a ameaça iminente do fim do mundo, ou a profecia pálida de mais um natal, os dias vem me surpreendendo, o relógio resolveu me dar uma brecha justo quando eu não precisava. Quem sou eu pra reclamar... Foi um dia diferente, começou com a alegria proletária da cesta rasa de natal, arrisquei uma satisfação, que logo acabou com a ameaça de chuva, pedi carona então.
Enquanto esperava, o céu amarelo dizia adeus, tomando seu lugar um céu paulista, acinzentando até as árvores de primavera, eu olhava até o final da rua horizontal, por um carro reconhecível, quando, lá no fundo, lá pra perto de onde é o mercadinho (cujos preços não tem nada de - inho), avistei dois pontinhos brancos. Um mais claro. Aos poucos, os pontinhos iam aumentando, mas bem aos poucos mesmo, muito aos poucos. Até o relógio resolveu parar pra observar. O moço com a barriga grande, que eu nunca sei o nome, conversava comigo, e eu me deliciava atentamente ao seu sotaque, tentando adivinhar de onde poderia ser. Olhei novamente, e os pontinhos brancos cresceram mais um tiquinho. Outro tiquinho. Vi uma bengala, ouvi o arrastar de sapatinhos, ouvi o balançar de um terço. Passaram duas senhoras de braços dados, com passo bem lento, respeitando o ritmo da bengala designada a senhora com o terço.
Pararam ao lado de onde eu estava, em frente a uma escadaria curta, que dava para a rua detrás. A primeira senhora, com a bengala, esperou, enquanto a segunda andou, andou, andou, andou, andou e parou a 2 metros da primeira. "Não tem problema, vamos subir, por aqui mesmo."; "Deve haver como dar a volta" "Vamos subir". Eu orelhava disfarçadamente, até elas sumirem da minha visão periférica, em direção a escadaria, e por um momento, esqueci do ocorrido.
Passaram mais alguns bons tempos, o céu roxo quase cinza, o bar em frente recebendo mais pessoas, eu me sentia cachorro vira-lata em porta de padaria. Pessoas que chegam quando vou embora, já estavam indo embora. Passara muito tempo, encostei as costas na parede, e mexia o tronco de um lado para o outro, olhando cada vez em uma direção da rua, até que em um momento de eureka, olhei para a escadaria e vi as senhoras, afastadas, voltaram a ser pontos brancos, lá no topo, alto, longe, da escadaria, um esforço descomunal aquela bengala exercia, e faltavam três degraus, acompanhei, torcendo mentalmente, parecia fotografia que meus olhos tiravam, ou cena de filme de 20 qps.
A iluminação feita por um único poste, e uns raios resquícios do sol, o som do vento e rodas no asfalto, e lá no final da escadaria dois senhores esperando as senhoras em sua escalada. Não contive um sorriso quando alcançaram o último degrau e foram recebidas com um abraço. Não sei o que diziam aqueles quatro quadros brancos, mas aposto que riam, e diziam sobre doenças, sobre uma nova receita, uma farmácia em promoção, o terço...
Minha carona chegou e o relógio voltou a me apressar. Eu não quero envelhecer.
Em algum momento desse dia, escolhi poupar meus ouvidos, e permitir o vento de me falar. No horário de verão, mesmo o rush parece mais romântico, é quase um êxtase poético ver folhas de ipê recém nascidas sendo esmagadas por volks, mercedes, fords, fiats, na impermeabilidade asfáltica. Nasci concretada, acostumei com cinza nos dias.
Eu não sei adivinhar, nem palpitar o que vem acontecendo, pode ser a ameaça iminente do fim do mundo, ou a profecia pálida de mais um natal, os dias vem me surpreendendo, o relógio resolveu me dar uma brecha justo quando eu não precisava. Quem sou eu pra reclamar... Foi um dia diferente, começou com a alegria proletária da cesta rasa de natal, arrisquei uma satisfação, que logo acabou com a ameaça de chuva, pedi carona então.
Enquanto esperava, o céu amarelo dizia adeus, tomando seu lugar um céu paulista, acinzentando até as árvores de primavera, eu olhava até o final da rua horizontal, por um carro reconhecível, quando, lá no fundo, lá pra perto de onde é o mercadinho (cujos preços não tem nada de - inho), avistei dois pontinhos brancos. Um mais claro. Aos poucos, os pontinhos iam aumentando, mas bem aos poucos mesmo, muito aos poucos. Até o relógio resolveu parar pra observar. O moço com a barriga grande, que eu nunca sei o nome, conversava comigo, e eu me deliciava atentamente ao seu sotaque, tentando adivinhar de onde poderia ser. Olhei novamente, e os pontinhos brancos cresceram mais um tiquinho. Outro tiquinho. Vi uma bengala, ouvi o arrastar de sapatinhos, ouvi o balançar de um terço. Passaram duas senhoras de braços dados, com passo bem lento, respeitando o ritmo da bengala designada a senhora com o terço.
Pararam ao lado de onde eu estava, em frente a uma escadaria curta, que dava para a rua detrás. A primeira senhora, com a bengala, esperou, enquanto a segunda andou, andou, andou, andou, andou e parou a 2 metros da primeira. "Não tem problema, vamos subir, por aqui mesmo."; "Deve haver como dar a volta" "Vamos subir". Eu orelhava disfarçadamente, até elas sumirem da minha visão periférica, em direção a escadaria, e por um momento, esqueci do ocorrido.
Passaram mais alguns bons tempos, o céu roxo quase cinza, o bar em frente recebendo mais pessoas, eu me sentia cachorro vira-lata em porta de padaria. Pessoas que chegam quando vou embora, já estavam indo embora. Passara muito tempo, encostei as costas na parede, e mexia o tronco de um lado para o outro, olhando cada vez em uma direção da rua, até que em um momento de eureka, olhei para a escadaria e vi as senhoras, afastadas, voltaram a ser pontos brancos, lá no topo, alto, longe, da escadaria, um esforço descomunal aquela bengala exercia, e faltavam três degraus, acompanhei, torcendo mentalmente, parecia fotografia que meus olhos tiravam, ou cena de filme de 20 qps.
A iluminação feita por um único poste, e uns raios resquícios do sol, o som do vento e rodas no asfalto, e lá no final da escadaria dois senhores esperando as senhoras em sua escalada. Não contive um sorriso quando alcançaram o último degrau e foram recebidas com um abraço. Não sei o que diziam aqueles quatro quadros brancos, mas aposto que riam, e diziam sobre doenças, sobre uma nova receita, uma farmácia em promoção, o terço...
Minha carona chegou e o relógio voltou a me apressar. Eu não quero envelhecer.
domingo, 2 de dezembro de 2012
São Paulo de Todos Os Santos
Meu café com leite e pão com manteiga paulistanos
não serão substituídos facilmente.
Gosto de conservar certos costumes
- o jeito paulista de ser, e não estar.
Contudo, afasto o medo da mudança
típico de Morumbi.
Estou mais para Sé que Higienópolis.
Encaro a vida de frente,
com os dentes a mostra,
se for para quebrar a cara,
eu conserto o sorriso.
Apesar das enchentes de derrotas,
e o tráfego de discórdias,
não ando em círculos em marginais,
não ando em círculos em torno do meu umbigo,
não.
Passeio...
entre as gentes na minhoca de metal,
entre os cheiros de pequi, de frango com polenta,
de chimarrão, de acarajé, de açaí, de esgoto a céu aberto.
entre sotaques...
eu não tenho nenhum.
Sou fácilmente odiável quando sou 10 milhões e não apenas uma.
Sou nordestina,
sou mineira,
sou sulista,
sou navegante da Bahia.
Sou de São Paulo e de Todos Os Santos.
não serão substituídos facilmente.
Gosto de conservar certos costumes
- o jeito paulista de ser, e não estar.
Contudo, afasto o medo da mudança
típico de Morumbi.
Estou mais para Sé que Higienópolis.
Encaro a vida de frente,
com os dentes a mostra,
se for para quebrar a cara,
eu conserto o sorriso.
Apesar das enchentes de derrotas,
e o tráfego de discórdias,
não ando em círculos em marginais,
não ando em círculos em torno do meu umbigo,
não.
Passeio...
entre as gentes na minhoca de metal,
entre os cheiros de pequi, de frango com polenta,
de chimarrão, de acarajé, de açaí, de esgoto a céu aberto.
entre sotaques...
eu não tenho nenhum.
Sou fácilmente odiável quando sou 10 milhões e não apenas uma.
Sou nordestina,
sou mineira,
sou sulista,
sou navegante da Bahia.
Sou de São Paulo e de Todos Os Santos.
sexta-feira, 23 de novembro de 2012
Jovem Idosa
O prontuário me descreve com bursite
O receituário me prescreve uns tantos remédios
Os tantos remédios me atacam uma dor no estômago
Outro receituário me prescreve uns outros tantos remédios
A curandeira do bairro me indica um chá de tantas ervas
A rotina me leva a uns tantos copos d'água
A vontade, à cerveja.
Outro prontuário me castiga com bronquite, além de asmática, crônica.
O receituário me obriga ao pulmão, bromidrato de fenoterol
A curandeira me traz água fervente com outras tantas ervas
A rotina me traz menos dias
A vontade é de renascer.
Outro prontuário me indica o óbvio do stress
Enxaqueca
O receituário assinado como quase obituário
Me pune com tudo natural de viver
Viver assim na esteira defeituosa que vivo
Os punhos tremem,
o estômago reclama,
a cabeça condena,
os olhos cerram,
a boca não geme,
o coração consente.
Sofro de obrigações.
O receituário me prescreve uns tantos remédios
Os tantos remédios me atacam uma dor no estômago
Outro receituário me prescreve uns outros tantos remédios
A curandeira do bairro me indica um chá de tantas ervas
A rotina me leva a uns tantos copos d'água
A vontade, à cerveja.
Outro prontuário me castiga com bronquite, além de asmática, crônica.
O receituário me obriga ao pulmão, bromidrato de fenoterol
A curandeira me traz água fervente com outras tantas ervas
A rotina me traz menos dias
A vontade é de renascer.
Outro prontuário me indica o óbvio do stress
Enxaqueca
O receituário assinado como quase obituário
Me pune com tudo natural de viver
Viver assim na esteira defeituosa que vivo
Os punhos tremem,
o estômago reclama,
a cabeça condena,
os olhos cerram,
a boca não geme,
o coração consente.
Sofro de obrigações.
segunda-feira, 12 de novembro de 2012
Rio Tietê
Teu coração é pequeno demais,
para o tanto de alma que tenho para dar.
Talvez por isso se explique outras projeções minhas,
a busca,
eu só não sou suficiente.
Eu sou notícia velha de jornal forrando o asfalto lameado
Eu sou a falta de apetite no jantar.
Eu sou a fantasia de carnaval fora de época,
Eu sou palhaço sem alegria.
Teu barco é pequeno demais,
para o tanto de água que quero navegar.
Eu sou a poluição do mar.
para o tanto de alma que tenho para dar.
Talvez por isso se explique outras projeções minhas,
a busca,
eu só não sou suficiente.
Num filme, num copo, num quadro, num carro, num corpo, numa cor.
Numa estrada, numa cidade, numa nuvem, numa porta, numa cama.
Eu sou a falta de apetite no jantar.
Eu sou a fantasia de carnaval fora de época,
Eu sou palhaço sem alegria.
Teu barco é pequeno demais,
para o tanto de água que quero navegar.
Eu sou a poluição do mar.
sexta-feira, 9 de novembro de 2012
Auto do Sétimo Andar
Olhei para trás e vi que o rapaz de óculos amarelo continuava a me
seguir, já havia mudado de ônibus três vezes desde que o percebi me
seguindo após o fim do expediente. Agora no meu bairro, desviava de rua
em rua, de esquina em esquina, enquanto pensava como consegui morar
tanto tempo em um lugar onde só conheço meu prédio, mais especificamente
meu andar, meu cubículo, minha janela pela fachada. Fingi abaixar para
arrumar meus sapatos, ele parou, levantei rapidamente preparando para
correr, então estava ele, incógnitamente, na minha frente, reconheci
seus óculos e acordei.
Acordei num espasmo, um cordão de saliva
se rompeu escorrendo da minha boca, fez-se um barulho e o livro caiu no
chão. Olhei para os lados, ainda com a imagem dos carros parados, a luz
baixa refletindo na calçada, o cheiro acizentado da noite, mas não, era
só minha sala, eu na cadeira velha e um livro no chão.
Liguei a
TV porque detesto o som dos meus pensamentos, fiz café, sentei
novamente e só. A TV não me impediu de pensar. Tiquetaqueou o relógio e
despertei de um desmaio consciente, exclamei em silêncio e sai para
jantar, meu único sentimento do dia foi fisiológico. Sorri para o
garçom, que não me reconheceu, sentei, comi, paguei. Na saída vi um
rosto conhecido, olhei novamente e nada, reticente fui embora.
Retomei a leitura do livro ao chegar em casa, a curiosidade me coçava o
cérebro para lembrar o que de tão chato havia lido para me fazer dormir,
já que há meses tenho insônia. Com a intenção de dormir, procurei uma
posição confortável, em vão, as opções eram : meu quarto, cuja lâmpada
estava quebrada (diga-se de passagem, desde que me mudei) ou a sala,
onde só havia uma cadeira, que herdei de minha avó, só porque uma vez,
por educação, elogiei a almofada estampada florida que ela mesma havia
encapado. " Ficou linda a cadeira, vovó" "Gostou mesmo? Eu que fiz. Sem
ajuda!" toda orgulhosa pela prova de superação do Parkinson. Alguns
meses depois, morreu.
Não foi difícil achar a página a qual
parei, esta, estava amassada pelo tombo que levou, mas o livro era tão
chato, que nem me importei, logo eu, que sempre tomei tanto cuidado com
meus livros, me importo mais com estes do que com gente, ainda mais a
gente que eu conheço. Olhei para as palavras sem lê-las, até achar uma
que reconhecia, a partir de então, retomei a leitura do início do
parágrafo.
Olhou para mim, mas continuou andando, pareceu não
me reconhecer, estou tentando lhe alcançar desde a saída do trabalho,
sem sucesso. Agora no bairro que tanto conheço, desvia de rua em rua,
parecendo me mostrar o lugar, como guia, e como poderia não me recordar
da cidade? Parou um momento e aproveitei para lhe falar - deixei o livro
cair no chão, me levantei e ri, a sensação de "dejavú" e ceticismo me
tomaram. Sonhei com o livro, um livro chato, tanto que nem me lembrava,
quando acordei, do que havia lido. Minhas pálpebras pediam
clementemente para fecharem-se, o meu cérebro que não permitia. Podia
ouvir o sangue passando por minhas artérias, me distraí daquele silêncio
incômodo retomando o livro, deitei no chão com a face para frente à
lâmpada, tapei a luz com o livro, li.
Acordei e percebi que já
se passava do meio-dia, um cheiro forte de carne de porco ardiam minhas
narinas, levantei do colchão e procurei minhas roupas, aquele quarto
fedia a fungos e comida de bar. Percebi que um pé de meia havia sumido, e
percebi da pior forma possível: pisando em uma poça d'água vinda do
banheiro. Me conformei, vi o livro caído aberto, longe da poça, me
estiquei para alcançá-lo, me doeu todo o corpo, dos mindinhos dos pés
até as maçãs do rosto, sorri de dor.
Com o livro embaixo do
braço, fui até o bar e perguntei pelo ponto de ônibus, "além de insônia,
tenho sonambulismo" pensava enquanto o senhor com cheiro de suor e
feijão me explicava o caminho. Demorei para chegar em casa, se não fosse
o cheiro de porco, nem teria percebido a viagem. Tentava
insistentemente lembrar, ou imaginar, como poderia ter acordado no outro
lado da cidade. Enfim cheguei, me enfiei no chuveiro.
Liguei a
TV, e larguei meu corpo encharcado no chão empoeirado da sala, suspirei
como defunto no caixão. Minha cabeça doía, luzes dançavam no escuro dos
meus olhos fechados, meus dentes pareciam querer me devorar, minha
respiração era asmática porém constante, a garganta pediu água, eu
atendi.
Tomei a decisão de trancar a casa antes de ler o livro,
cair no sono e sair como zumbi, por sei lá onde. Esperei passar da
meia-noite para então retomar a leitura, alguns flashes tomavam minha
mente, lembranças de sonhos passado, eu não sei o que eram, sentia uma
pancada no tórax a cada flash, o bumbo de uma música alta. Abri o livro e
não parecia que eu tivesse avançado muito na leitura noite passada,
decidi então persistir dessa vez.
Cheguei tarde em seu
apartamento, fiquei incomodado pelo horário, mas parecia estar me
esperando. Não tive tempo de entrar, 'Vamos' e fomos. No elevador,
perguntou onde estava morando, 'não tão bem quanto você' respondi, riu
de mim, não para mim. Quis abrir uma garrafa de vinho ao chegarmos,
ofereci água, riu de novo. Ligou o som alto e começou a telefonar, logo a
casa estava cheia.
Dançou com todos, bebeu de tudo, de todos,
se debatia no sofá com outras três pessoas, fingi não ter ciúmes. Senti
seus olhos me atravessando os óculos, mesmo míope, via-me refletido em
suas pupilas, me pegou pelas mãos e nos fechou no quarto. Cheirou uma
carreira inteira de cocaína, enquanto se mordia, me mordia também, tomei
suas mãos que me agrediam, a violência ali, era minha.
Meus olhos remontavam cada quadro das cenas que eu lia, e se montavam ao meu
redor,
eu não estava mais em minha sala, eu estava naquele quarto, ou aquele
lugar se montava na minha sala. Eu na cadeira embriagada, e pessoas
passando, e vomitando, e dançando, se masturbando, tropeçando em mim.
Ouvia a música com meu peito, um cheiro viciante, um ar grosso de
respiração, de álcool, de suor, de drogas e sexo me dopavam. Um par de
óculos caminhou em minha direção, encontrou minhas mãos, me jogou no
chão e então uma página em branco.
Levei uma mão trêmula até
meu rosto, em uma quase convulsão me levantei. O livro estava em branco,
caminhei meus dedos nas páginas seguintes, a história se seguia com as
palavras tão dançantes, meus olhos só reconheciam letras, pontuações,
espaços... Nenhuma palavra veio a mim, e eu não fui à elas, me dirigi a
cozinha, procurando calma em um copo d'água, o que encontrei foi raiva
de um vidro na minha mão. Eu era o vidro agora.
"Não, não
preciso de um curativo" respondi. Cedi, arrancou um pedaço de tecido de
sua manga e amarrou na minha mão. Agradeci. Olhei para baixo, o sangue
não estancava, mas sangrava com menor intensidade pelo menos.... Depois
de um tempo, me cansei de olhar para o pedaço de pano ensanguentado,
peguei o livro e com um suspiro o abri.
Depois de um tempo que
eu havia chegado, minha boca anunciava a necessidade de água, percebendo
isso, foi até a cozinha, atender meu pedido. Da cozinha, ouvi um
barulho e prontamente me dirigi até lá, "o que aconteceu?" nem precisou
responder, o sangue escorrendo falou por si só. Um frio me subiu o
estômago, ofereci ajuda já rasgando minha roupa para estancar o sangue,
eu via a raiva em seus olhos. Me afastei, eu queria conversar sobre o
que aconteceu, o que na hora parecia um assunto imposível de se tocar,
insisti mesmo assim. Levantou o rosto e me xingou com os olhos, eu que
abaixei o rosto dessa vez. Disse que o copo quebrou em sua mão e só,
rebati que não era esse assunto que eu queria tratar, "você sabe o que
estou falando" "eu sei, só não quero conversar" me testava a paciência,
sua eterna teimosia com tudo, principalmente com a vida, insistia em não
viver.
" Você não quer falar sobre a noite em minha casa?" me
aproximei, e enquanto abria seu peito, arrancava-lhe a sujeira das
entranhas 'você não pode fugir de mim, você não pode fugir de mim'
posicionava meus pés sobre os seus e empurrava minha boca na sua.
Rasquei-lhe a roupa e a alma, tentou fugir. Tentei fugir, o empurrei,
cai da janela do sétimo andar.
quinta-feira, 1 de novembro de 2012
701
Ainda sou criança,
não sei brincar,
eu só sei mentir,
eu não sei rezar.
eu só sei fingir.
Se eu fosse um pássaro,
viveria engaiolado,
se eu fosse um gato,
seria adestrado,
se fosse máquina,
seria gente,
se fosse gente,
eu fingiria.
Sou o paciente 701.
não sei brincar,
eu só sei mentir,
eu não sei rezar.
eu só sei fingir.
Se eu fosse um pássaro,
viveria engaiolado,
se eu fosse um gato,
seria adestrado,
se fosse máquina,
seria gente,
se fosse gente,
eu fingiria.
Sou o paciente 701.
quarta-feira, 10 de outubro de 2012
Intinerário
Respeite os meus pés inchados,
os calos da mão tem mais idade que sua carteira assinada
Ande, e me dê lugar para sentar
ao menos espaço pra passar,
Não me apertes, já me basta o salário...
O mínimo não é suficiente nem pro mínimo
Deixe desse orgulho e olhe para o lado, camarada
Ande, vá, e me dê um lugar, por muito tempo eu não vou ficar
juro
nem aqui, nem em qualquer outro lugar
Deus gosta tanto de mim, que há de me levar mais cedo,
Gosta tanto de mim,
que até sorte tive de nascer!
Deus gosta tanto de mim,
me deu esses sulcos de terra,
essas marcas de pedra nas pontas dos dedos,
esses ossos de engrenagem velha,
e um coração muito grande para onde habita.
Respeite minh'alma inchada, camarada, e me dê uns segundos para descansar.
os calos da mão tem mais idade que sua carteira assinada
Ande, e me dê lugar para sentar
ao menos espaço pra passar,
Não me apertes, já me basta o salário...
O mínimo não é suficiente nem pro mínimo
Deixe desse orgulho e olhe para o lado, camarada
Ande, vá, e me dê um lugar, por muito tempo eu não vou ficar
juro
nem aqui, nem em qualquer outro lugar
Deus gosta tanto de mim, que há de me levar mais cedo,
Gosta tanto de mim,
que até sorte tive de nascer!
Deus gosta tanto de mim,
me deu esses sulcos de terra,
essas marcas de pedra nas pontas dos dedos,
esses ossos de engrenagem velha,
e um coração muito grande para onde habita.
Respeite minh'alma inchada, camarada, e me dê uns segundos para descansar.
domingo, 7 de outubro de 2012
Colheita
Sinto falta da ansiosidade oceânica
Hoje, a calmaria me atormenta.
Nesses tempos arenosos
tudo é sólido e passa a frente de meus olhos.
Escolhi não ver,
não sentir,
nao ouvir
A dor pinga em gota d'água no alumínio,
enferrujando a voz e a força do pensamento.
Não me incomodam os hábitos,
me cansam a um estado de letargia,
deixe estar, que assim está e continua.
O retardo do tempo de amadurecer,
a fruta apodrece com a casca verde,
e o olfato denúncia o que a visão ignora.
- eu sinto sem saber.
E deixe que estar, que assim está
tudo é sólido, desgasta,
nada flui.
Hoje, a calmaria me atormenta.
Nesses tempos arenosos
tudo é sólido e passa a frente de meus olhos.
Escolhi não ver,
não sentir,
nao ouvir
A dor pinga em gota d'água no alumínio,
enferrujando a voz e a força do pensamento.
Não me incomodam os hábitos,
me cansam a um estado de letargia,
deixe estar, que assim está e continua.
O retardo do tempo de amadurecer,
a fruta apodrece com a casca verde,
e o olfato denúncia o que a visão ignora.
- eu sinto sem saber.
E deixe que estar, que assim está
tudo é sólido, desgasta,
nada flui.
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